sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Paixão em descompasso: salto agulha e lençóis de seda




Mesmo menina, havia se entregado àquela paixão abrupta, repentina. Vê-lo a admirar seu corpo a levava ao êxtase de se sentir desejada, de se sentir a mulher em que agora, aos poucos, mas de maneira voraz, se transformava.

Desnudava-se lentamente ao som de uma canção de batida com a mesma sincronia, lenta e cativante. Carregava nos lábios um sorriso exibicionista, mas seu olhar era sério, firme, e sustentava o dele.

Movia-se metodicamente sob o longo salto – tão fino quanto a curva de sua cintura – sobre o colchão, macio num quarto que, agora abafado, a seu ver era quase como um templo sagrado e guardião até mesmo de seus mais intrínsecos desejos.

Sem se dar conta, foi ao chão!

Respirou fundo. De novo. E mais uma vez.

Reviveu a queda, buscando entender como, em frações de segundo, se deparou com o piso frio, mas o novíssimo hematoma em seu braço a incomodava.

Os olhos arregalados pelo susto encontraram os dele. Fecharam-se quase que por completo enquanto sua delicada e estridente voz transformava-se num riso histérico de vergonha, embora fosse muito honesto.

E, como ela, passado pouquíssimo tempo, a paixão logo se abalou, indo com toda força contra o chão.

Ela não se deixou abater. Não abandonou o salto, recompôs-se no caminhar sensual em busca de novas paixões, agora, se possível, um pouco menos nocivas.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Filtro dos sonhos

          Ela olhava sua imagem refletida, já sem ânimo. Era a personificação da contradição.
          Embora tivesse pouca idade, suas marcas de expressão eram de linhas profundas. Seus olhos eram contornados de um marrom arroxeado, denunciando as noites mal dormidas... Culpa do levíssimo sono que, mesmo sem entender o porquê, era sempre turbulento, cheio de sonhos incompreensíveis e imagens de velhos conhecidos.
          O mesmo olhar, que mais parecia a tela de um pintor impressionista fadado ao anonimato, tingido de oliva e rudemente salpicado de tons pasteis, transmitiam a dicotomia em sua mente, por vezes tão nova, por vezes já avançada – quase arcaica.
          Suas unhas mal acabadas, sem esmaltar, mas com apenas a sujeira do labor, indicavam sua total indiferença à beleza que lhe poderia ser imposta.
          Respirava fundo por vezes, tentando descansar a mente, quem sabe até buscando meditar, mas sua farta ingestão de um café preto, puro e amargo impedia que a palpitação em seu peito desacelerasse.
          Ah, ela andava tão cansada... mas andava. Seus passos involuntários a surpreendia em vários momentos, tanto quanto os demais movimentos absolutamente voluntários que fazia de forma tão mecânica.
          Apesar de em descrição parecer moça de fazenda ou uma sitiante qualquer, morava na cidade de altíssimos prédios, a tal “selva de pedras” e seus clichês.
        Preferia ser orientada pelo sol a ter que se submeter ao pequeno rodopiar preso em seu pulso, mas era suficientemente obediente para não se atrasar para compromissos sérios ou grandes eventos.
          Considerava-se uma pessoa comum. E era. Embora carregasse em seu coração acelerado as emoções que tornavam sua respiração ainda mais pesada – e contribuíam com a tosse seca que por vezes a tomava de supetão, entrecortando sua calma voz, sem qualquer motivo aparente.
          Era sensível: vivia de tratamentos combatentes aos sintomas alérgicos. Era uma rocha: nunca deixava cair uma gota sequer de seus olhos.
          Sonhava também acordada, mas, nesses sonhos, acrescentava todos os detalhes que lhos fossem permitidos. Maquinava planos para sua vida futura, imaginando-se com os cabelos já ralos e grisalhos – com a mesma mente de sempre.
          Sofria do mal da saudade, e embora temesse a morte, temia de forma ainda mais intensa a solidão. Talvez fosse só sua mente turbulenta lhe pregando peças e peripécias. Mas sabia que, na verdade, podia planejar e se empenhar para conseguir o que fosse... Só não podia, contudo, obrigar ninguém a aceitar suas ambiguidades, tão diversas como um mesmo de matizes e nuances.
          Acreditava, no entanto, que sua sorte poderia mudar. Tanto para o bem, quanto para o mal. E, considerando essa premissa, buscava sempre exaltar as coisas simples e boas da vida, de sua rotina. E embora não fosse perfeita, como nenhum outro seria, buscava elogiar com sinceridade aquilo que admirasse... Esforçando-se ao máximo para não ser igualmente sincera nas coisas que lhe tirasse do sério ou lhe desagradasse.