sexta-feira, 31 de março de 2017

Geração Y

Está constatado – por mim. Os adolescentes de vinte e tantos anos são, definitivamente, a geração salvadora da indústria e da ciência farmacêutica – eu inclusa.
Somos a geração dos antidepressivos, e dos ansiolíticos. Somos a geração Y, com R, de Rivotril.

Somos a geração da transição entre o tradicional e o tecnológico, que nasceu sob a expectativa lasciva da geração X, ou seja lá qual seja a letra atribuída para a geração anterior. Somos a geração dos frios no estômago e nós na garganta, que causam ânsia, que são ansiedade. Somos a geração em que o filho chora, e a mãe pode até ver, sim, mas determinando que devemos seguir em frente; afinal, ninguém aqui tem tempo a perder.

Nós nos tornamos a geração da tendinite, conectada aos softwares que nos deixa impacientes na lentidão dos segundos perdidos. Nos tornamos a geração cheia de querer, da Era da Informação, mas sem poder e sem poderes.

E assim continuamos, com a falta de produtividade de pensamentos acelerados, com o sono constante pelas noites em que o sono não vem, pela dor contínua resolvida com uma série de remédios que nos prejudicam o fígado, o rim, o cérebro.

Talvez sejamos, mesmo, e também, seres humanos de sentimentos líquidos, quase que nos moldes de Bauman, variando na inconstância da solidez insustentável num período de poucas horas.

Talvez sejamos, mesmo, pessoas com os mesmos problemas de antes, mas agora com novos nomes, com novas drogas-soluções, com novos enfrentamentos, desafiados pela vontade de salvar um mundo que não parece querer ser salvo; ou, tão pouco, parece querer nos salvar.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Paixão em descompasso: salto agulha e lençóis de seda




Mesmo menina, havia se entregado àquela paixão abrupta, repentina. Vê-lo a admirar seu corpo a levava ao êxtase de se sentir desejada, de se sentir a mulher em que agora, aos poucos, mas de maneira voraz, se transformava.

Desnudava-se lentamente ao som de uma canção de batida com a mesma sincronia, lenta e cativante. Carregava nos lábios um sorriso exibicionista, mas seu olhar era sério, firme, e sustentava o dele.

Movia-se metodicamente sob o longo salto – tão fino quanto a curva de sua cintura – sobre o colchão, macio num quarto que, agora abafado, a seu ver era quase como um templo sagrado e guardião até mesmo de seus mais intrínsecos desejos.

Sem se dar conta, foi ao chão!

Respirou fundo. De novo. E mais uma vez.

Reviveu a queda, buscando entender como, em frações de segundo, se deparou com o piso frio, mas o novíssimo hematoma em seu braço a incomodava.

Os olhos arregalados pelo susto encontraram os dele. Fecharam-se quase que por completo enquanto sua delicada e estridente voz transformava-se num riso histérico de vergonha, embora fosse muito honesto.

E, como ela, passado pouquíssimo tempo, a paixão logo se abalou, indo com toda força contra o chão.

Ela não se deixou abater. Não abandonou o salto, recompôs-se no caminhar sensual em busca de novas paixões, agora, se possível, um pouco menos nocivas.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Filtro dos sonhos

          Ela olhava sua imagem refletida, já sem ânimo. Era a personificação da contradição.
          Embora tivesse pouca idade, suas marcas de expressão eram de linhas profundas. Seus olhos eram contornados de um marrom arroxeado, denunciando as noites mal dormidas... Culpa do levíssimo sono que, mesmo sem entender o porquê, era sempre turbulento, cheio de sonhos incompreensíveis e imagens de velhos conhecidos.
          O mesmo olhar, que mais parecia a tela de um pintor impressionista fadado ao anonimato, tingido de oliva e rudemente salpicado de tons pasteis, transmitiam a dicotomia em sua mente, por vezes tão nova, por vezes já avançada – quase arcaica.
          Suas unhas mal acabadas, sem esmaltar, mas com apenas a sujeira do labor, indicavam sua total indiferença à beleza que lhe poderia ser imposta.
          Respirava fundo por vezes, tentando descansar a mente, quem sabe até buscando meditar, mas sua farta ingestão de um café preto, puro e amargo impedia que a palpitação em seu peito desacelerasse.
          Ah, ela andava tão cansada... mas andava. Seus passos involuntários a surpreendia em vários momentos, tanto quanto os demais movimentos absolutamente voluntários que fazia de forma tão mecânica.
          Apesar de em descrição parecer moça de fazenda ou uma sitiante qualquer, morava na cidade de altíssimos prédios, a tal “selva de pedras” e seus clichês.
        Preferia ser orientada pelo sol a ter que se submeter ao pequeno rodopiar preso em seu pulso, mas era suficientemente obediente para não se atrasar para compromissos sérios ou grandes eventos.
          Considerava-se uma pessoa comum. E era. Embora carregasse em seu coração acelerado as emoções que tornavam sua respiração ainda mais pesada – e contribuíam com a tosse seca que por vezes a tomava de supetão, entrecortando sua calma voz, sem qualquer motivo aparente.
          Era sensível: vivia de tratamentos combatentes aos sintomas alérgicos. Era uma rocha: nunca deixava cair uma gota sequer de seus olhos.
          Sonhava também acordada, mas, nesses sonhos, acrescentava todos os detalhes que lhos fossem permitidos. Maquinava planos para sua vida futura, imaginando-se com os cabelos já ralos e grisalhos – com a mesma mente de sempre.
          Sofria do mal da saudade, e embora temesse a morte, temia de forma ainda mais intensa a solidão. Talvez fosse só sua mente turbulenta lhe pregando peças e peripécias. Mas sabia que, na verdade, podia planejar e se empenhar para conseguir o que fosse... Só não podia, contudo, obrigar ninguém a aceitar suas ambiguidades, tão diversas como um mesmo de matizes e nuances.
          Acreditava, no entanto, que sua sorte poderia mudar. Tanto para o bem, quanto para o mal. E, considerando essa premissa, buscava sempre exaltar as coisas simples e boas da vida, de sua rotina. E embora não fosse perfeita, como nenhum outro seria, buscava elogiar com sinceridade aquilo que admirasse... Esforçando-se ao máximo para não ser igualmente sincera nas coisas que lhe tirasse do sério ou lhe desagradasse.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A última dose



          A tequila estava escorregadia na mão daquele homem. Não sendo suficiente o cambaleado, demonstrando sua embriaguez, deixou que o copo escorregasse de sua mão e se partisse em pequenos pedaços, derramando aquilo que a pouco tempo era o bem mais precioso que ele tinha.
          Este fato, porém, já não importava mais. Em sua frente havia uma mulher cuja beleza faria Afrodite parecer infantil. Seus olhos de predadora assustava e cativava, bem como seu vestido preto e a pele incrivelmente branca. A máscara fazia com que seu rosto se mantesse guardado, em segredo e obscuro.
          Um arrepio subiu por sua coluna enquanto aquela mulher estonteante se aproximou e o arremessou contra a parede, que bateu fortemente contra a  sua cabeça, e apesar de sentir seu crânio partir-se ao meio, ele ainda estava consciênte, sem qualquer sinal de sangue, ainda hipnotizado por aquela mulher que agora o abraçava.
          Um beijo suave dado em seus lábios, e os olhos se arregalaram. Nos olhos dela tinha chamas e escuridão. Tinha poder. Pouco a pouco a dor implacável tomou o corpo do rapaz, queimando e se desfazendo de dentro pra fora... Ele tinha sua alma tomada pela boca. Ele beijou sua morte.
          Num último suspiro o homem teve sua redenção através da dor, e todos os seus pecados friamente cometidos, agora não importavam.
          O gosto da tequila agora era amargo, e seu coração subtamente parou.
(Feito em conjunto com Ivanna Joy e Dedessa Mota)

sexta-feira, 16 de março de 2012

          Cada macaco no seu galho. Na sociedade atual, padrões, tanto de beleza, quanto de comportamento, são empregados por pessoas que buscam se beneficiar com isto, ou mesmo pelos próprios cidadãos que, constantemente, sofrem a pressão de se encaixarem em um "modelo ideal".
          As diferenças culturais, a personalidade, os sentimentos e a necessidade de cada pessoa devem ser respeitadas de acordo com seus valores morais, sua herança cultural e sua criação.

(Ma Notário e Ivanna Joy)

quinta-feira, 15 de março de 2012

Quebrando barreiras

          Na megalópole de São Paulo havia uma família de grande destaque econômico. Esta era a família Muhamed, com suas heranças árabes, trazia em seu cotidiano a impecável hospitalidade, porém a frieza sentimental, que impedia uma aproximação íntima até mesmo entre seus filhos.
          Era a esta família que Fernando pertencia. Um jovem de dezesseis anos, elegante, esperto e atraente, porém bastante reservado devido a ausência de afeto por parte de seus pais.
          Após um dia turbulento, o motorista de Fernando o esperava em frente ao colégio. A batida exagerada da porta revelou outro dia de frustrações pessoais, e as palavras mais amigáveis não foram suficientes para fazê-lo falar. O estouro do pneu foi o ápice, o garoto saiu da limousine e caminhou em busca de um atalho para que o motorista não o achasse.
          Ao perceber que estava perdido, a sede insistiu em se fazer presente, mas naquele humilde bairro não havia ao menos um local para comprar um pouco de água. Foi neste momento que Fernando se deparou com a figura de uma mulher que trazia no olhar a sabedoria e esperança, contrastando com suas vestes.
          France, ao ver a aflição do rapaz, ofereceu um como d'água. O garoto se surpreendeu com tamanha generosidade, pois mesmo com as dificuldades daquele lar, havia a compaixão que ao seu redor era escassa.
          Depois daquele dia de reflexão sobre o modo como ele via o mundo, Fernando mudou seus hábitos, agregou novos valores e se tornou realmente feliz. As transformações foram tão drásticas e notáveis, que seus pais começaram a interrogá-lo sobre os motivos daquelas atitudes, mas por receio de que eles descobrissem e o proibissem de utilizar sua mesada da maneira que estava utilizando, ele inventava desculpas qualquer.
          Passaram-se alguns meses, e a ausência de Fernando em sua casa incomodava seus pais. Foi assim que eles decidiram pedir para o motorista de seu filho o seguir.
          Quando descobriram o que o rapaz estava fazendo, os pais, incrédulos, decidiram ver com seus próprios olhos os atos do garoto. Entrando naquele "barraco" sentiram calafrios, mas ao verem Fernando contribuindo com a felicidade da família de France, sentiram-se aliviados e estranhamente felizes.

(Feito em conjunto com Ivanna Joy)